Recado de Lygia Santos

Boa Noite a esse brilhante auditório, aos amigos que estou vendo aqui, e, destacando bem, meu coração está verdadeiramente em festa nesse momento. Ao Sr. Presidente da Mesa, Vereador Edson Santos, todo o meu respeito; Beth Carvalho, o meu eterno carinho; à minha filhinha Zilmar, meu beijo carinhoso; ao Ricardo, toda a minha amizade de mais de quarenta anos e o reconhecimento; e à minha mãe, um beijo afetuoso.
Par amim este é um momento único, porque eu tive afelicidade de ter duas mães. Isso não é para qualquer um. Tive a minha mãe biológica, que perdi aos meus 14 anos. Essa mãe, Zaira de Oliveira, era amiga da minha mãe, olha só que espetáculo! Eu fui criada juntamente com uma filha dela, minha irmã não biológica, mas uma pessoa a quem eu amei verdadeiramente: Nilza, que nos deixou. E até falei antes o que eu deveria ter falado depois, que era a morte de Nilza. Nós éramos amigas de infância. Convivemos muito tempo. Nesse período estávamos muito juntas com Abdias Nascimento, cujo primeiro jornal foi feito dentro da nossa casa com papai. Um jornalista negro americano fantástico, Mr. Skyler, que nesse tempo era o único proprietário de um jornal americano chamado Pitsburg e um jornal negro. Meu pai tinha veneração por esse homem, que nos visitou e nos influenciou muito a pensar o Brasil com os nossos olhos e com a nossa verdadeira imagem. Tudo isso nos meus 10, 11, 12 anos, eu já estava vendo dentro da minha casa, e a Nilza comigo. E a minha ainda não-mãe também.
O tempo foi passando, passando, passando, eu perdi minha mamãe. Nós sempre muito juntas, depois cada uma tomou seu rumo e a vida se encaminha disso. Nilza casou-se, eu me casei, meu pai viúvo. Mulherengo, Ricardo conheceu bastante. Não é, Ricardo? Uma história rica. Um belo dia, minha mãe vai ao Méier e eu estava nesse tempo separada morando com meu pai e ela vai me fazer uma visita. Não ao meu pai, a mim. Aí a coisa começou. Começaram a namorar. Eu já estava com a Márcia Zaíra pequenininha, Nilza com seus filhos, todos criados juntos. Sonia minha filha, Waltinho irmão da minha filha. Não diga a eles que eles não são irmãos porque eles não gostam. Todos se amam muito. Agora o que é que faz isso? É exatamente o que a Zilmar começou a fazer. É arelação de parentesco dos nossos ancestrais em função da diáspora negra. Então, nós somos felizes por quê? Porque na verdade nós exercitamos essa prática. O resultado está aqui. Toda a nossa família junta, unida, que se ama, se esforça, luta, se preocupa, deseja que todos sejam vencedores. Não há distinção entre nós. A mim não interessa se o sangue corre aqui ou não. Eu acho que sempre correu. Eu sinto que sempre correu. De maneira que para mim esse momento é divino e eu gostaria, minha mãe, de dizer a você com toda segurança, com toda sinceridade que o meu amor por você é verdadeiro. O meu respeito por você é altamente verdadeiro. O meu orgulho é muito grande nesse momento. Você representa um exemplo que eu não sei se pude ou poderei dar aos meus descendentes. Eu aprendi com você a ser humilde. Foi você que me ensinou a ser humilde porque a minha mãe não teve tempo, coitada. Então, eu agradeço muito. Eu hoje compreendo o mundo e acredito nas pessoas piamente. O meu coração está aberto para todos e você sabe fazer isso muito bem. Os seu netos todos estão aprendendo isso, porque nós estamos sabendo repassar. A sua responsabilidade conosco foi grande demais. Tudo o que eu consegui, tudo do jeito que eu hoje sou, como eu melhorei os meus sentimentos, como eu cresci na vida, eu agradeço tudo isso a algumas palavras que você me disse. Então, você hoje não divide com ninguém esse momento, é seu. Nós, da nossa família, que estamos pegando uma carona. Nós nos limitamos apenas a pegar uma carona na sua história que é linda, é linda! Eu convivi com você, convivi com sua mãe, a vovó Jandira, com a sua cunhada, seu irmão, tio Benedito. Vinhamos para Mendes e era uma maravilha, passávamos o carnaval lá. Eu não queria voltar. Parecia que aquela família já era minha. Eu não sei como, mas eu sentia. A casa era minha, a família era minha, eu não sabia qual era a minha casa. Então, eu quero diante de todos declarar o meu amor por você. O meu amor não tem limite. Você não tem nehum defeito. Você é uma das pessoas mais perfeitas que eu já vi na minha vida. Eu espero que meus netos, meus bisnetos possam pedir a Deus que você se conserve por muito tempo, porque nós precisamos da sua presença, precisamos da sua palavra, precisamos do seu conselho, precisamos do seu estímulo para nós continuarmos a viver, senão será difícil, quase não será possível. Muito obrigada por tudo o que a senhora tem feito. Obrigada pelo seu exemplo, obrigada pela sua coragem, obrigada pela sua dignidade, pela sua elegância até na hora da dor, de perder uma filha, e nos ensinar a continuar a viver. Porque nós não sabíamos viver, nós não tínhamos caminho, e a senhora, para mim, é especial. Muito especial! Mutio obrigada por tudo.