Recado de Luiz Antonio
de Queirós Mattoso (Kid)

Quando me mudei de Icaraí para o Grajaú, já tinha alguns amigos residindo lá. Entre eles, o Marcelo Cerqueira, que me levou à Mangueira, onde ouvi pela primeira vez, extasiado, um tipo de música que as rádios não tocavam, que não apareciam na TV. Naquela época, as Escolas de Samba ainda eram um reduto apenas das próprias comunidades.
Fiz novos amigos no Grajaú, como o meu querido Walter Oliveira. Conversa vai, cerveja vem, contei-lhe da minha "descoberta" do samba. Ele então me disse que, na casa de sua sogra - ninguém menos que a homenageada de hoje - aconteciam pagodes supimpas. Prometeu convidar-me para o próximo. Alguns dias depois, me avisa:
- Vai ter uma reunião no próximo sábado.
Quando meus parentes se reuniam, a norma era cada um levar salgadinho e bebida. Perguntei ao Walter se devia levar alguma coisa assim. "Precisa não", respondeu ele. Insisti no assunto, e ele cedeu:
- Se você faz questão de levar, então leve.
No sábado, lá fui eu para a Aldeia Campista, Rua Almirante João Cândido, levando um pacote de biscoito "barrigudinho" e uma garrafa de uísque. Walter me apresentou aos donos da casa, Mestre Donga e Dona Maria. Com um sorriso zombeteiro, ela me avisou:
- O senhor trouxe comida para minha casa! Vou mandar que só lhe sirvam do que o senhor trouxe.
A toda hora as crianças da casa, suas netas, passavam com petiscos maravilhosos. Se Vó Maria estivesse por perto, deixava que me servissem, mas fingia que repreendia:
- Pra esse aí, não, Márcia. Pra ele só do salgadinho que ele trouxe. E se ria. Meu embaraço foi passando.
Pra vocês terem uma idéia do bufê, lá pelas 3 da madrugada saiu um "feijãozinho", que, na verdade, era uma feijoada com todos os pertences. Acho que não saiu acarajé, um dos carros-chefes da quituteira Vó Maria. Mas vim a prová-los tempos depois.
Marinheiros, como eu, passam muitas vezes por Salvador. Seguíamos sempre as indicações dos baianos quanto aos melhores tabuleiros para se comer um bom acarajé. Pois nunca comi por lá um acarajé tão magnífico como os de Vó Maria. Perguntei-lhe o segredo. Modestamente me respondeu que talvez fosse porque ela descascava os feijões. Imaginem, descascar feijão, grão por grão!
Nesse primeiro pagode, fui exausto para casa, cerca de 9 da matina, no domingo. Mas ainda chegava e saía gente. E comidinhas rolando. O samba não parava.
Naquela casa, nas muitas vezes que depois a freqüentei, ouvi o que havia de melhor em música brasileira legítima. Os companheiros de Donga na "santíssima trindade", Pixinguinha e João da Baiana, Aniceto do Império, Walter Rosa, Darci, Jorginho "Cidadão Samba", Luperce Miranda, um sargento de nome Martinho, um casal de jovens irmãos do Méier, ela Gisa e ele João, Arnô Carnegal, Ney Lopes, Geraldo Babão, Clara Nunes, e muitos outros artistas de primeira. Vi nascerem Os Carioquinhas, com o saudoso Rafael e Luciana, ainda crianças. Mas eu não conseguiria relembrar todos os grandes instrumentistas e cantores que ouvi na casa de Vó Maria. As omissões são imperdoáveis, mas inevitáeis. E para não me estender por demais, vou parafrasear Monarco e dizer que:
"Se for falar nos sambas de Donga e Vó Maria, hoje eu não vou terminar".
Esta é uma ocasião de justas homenagens a Vó Maria. Fiquei muito honrado quando ela me incluiu entre os amigos que a saudariam aqui, hoje. Em vez de ressaltar-lhe as muitas qualidades, me perdi em doces lembranças desses anos de benquerenças.
Finalmente, um adendo. Injustificável a minha ausência aqui esta noite. Mas espero que a senhora aceite as explicações que dei à Soninha, e me perdoe.
Carinhosamente, Kid.