JORNAL DO BRASIL - 09/03/2004 - Caderno B
Vovó profissional
Helena Aragão

Viúva de Donga, Vó Maria faz prova na Ordem dos Músicos aos 92 anos Helena Aragão.

Ontem foi um dia especial para a mais velha cantora do país. Vó Maria, a viúva do compositor Donga, saiu de sua casa, na Tijuca, com uma missão e tanto: fazer prova na Ordem dos Músicos do Brasil para se tornar, no papel, uma profissional da área. Apesar da idade avançada - em maio, ela completará 93 anos -, Maria das Dores Conceição é uma iniciante na profissão: cantou em público pela primeira vez em 2001, e ano passado gravou seu primeiro disco, Maxixe não é samba .

Vestida de branco, unhas e brincos dourados, com um sorriso orgulhoso no rosto, ela chegou ao prédio da Ordem, no Centro, acompanhada de netos e bisnetos. Algum nervosismo à vista?
- Imagina, minha filha! Já fiz tanta coisa nessa vida...

E pensar que, há três anos, nada disso passava pela cabeça da tecelã aposentada Maria das Dores Conceição. Sentada, com uma senha na mão, ao lado de integrantes de um grupo de pagode que também aguardavam para fazer a prova, ela contou os detalhes. Com música, convive desde a infância em Mendes (RJ), graças aos irmãos instrumentistas. Com samba, desde os primórdios, já que foi casada justamente com o autor da primeira canção do gênero registrada no Brasil: Pelo telefone . Mesmo com esse background , passou grande parte da vida sem soltar o gogó em público.

- Quando era jovem, queriam me convencer a ir ao programa de calouros do Ary Barroso. Mas ele era muito bravo, e eu também sou, então a gente não ia se bicar - diverte-se.

Azar do público, que teve que esperar até 2003 para ouvi-la cantar. A semente foi plantada dois anos antes, quando foi comemorar seus 90 anos numa roda no Museu da Imagem e do Som e mostrou o vozeirão. Acabou arrebatando a então diretora da casa Marília Barboza, que resolveu fazer um disco. O CD Maxixe não é samba foi lançado em março, com produção do Instituto Cravo Albim e verba do Ministério da Cultura. Os 2 mil exemplares se esgotaram rapidamente, já que foram distribuídos a instituições de música.

Como a idéia é comercializar o disco a partir de fevereiro (Sonia Regina, a neta da cantora, está negociando um contrato com uma gravadora), Vó Maria cismou que deveria se profissionalizar.

- Ela estava me pedindo há meses para vir fazer a prova - conta a neta.

- Queria fazer tudo como manda o figurino. Se há entidades que nos representam, quero fazer parte. Daqui, vou direto para o sindicato me regularizar. Mas não vou virar cantora daquelas que dão show. Não quero tomar o lugar dos jovens - observa, mostrando seu cartão de visitas, com um calendário no verso:

- Tenho horror a auto-promoção! Até meu cartão tem sua utilidade.

A prova para ''músico prático'' consiste em mostrar habilidade em seu instrumento. No caso de Vó Maria, foi necessário cantar uma canção à capela (sem acompanhamento), a fim de comprovar domínio de afinação para a banca formada pelas cantoras Célia Silva e Jacira de Oliveira. A música escolhida foi Eu sou a outra , de Ricardo Galeno, que no disco também tinha sido gravada à capela.

Maria cantou bonito e fez graça ao entoar os versos ''Trago o coração ferido/ Mas tenho muito mais classe/ Do que quem não soube prender o marido'' olhando para o presidente da Ordem João Batista Vianna, também membro da banca. Para completar a festa, ganhou a almejada nota dez e deu até bis, a sincopada Pergunte ao João , de Helena Silva e Milton Costa. Ao se despedir, repetiu a frase que já virou seu bordão:

- Que Nossa Senhora da Guia guie o caminho de todos vocês.

E seguiu o dela, feliz da vida, rumo ao sindicato.