JORNAL DO BRASIL - 05/07/2003 - Caderno B
Talento para o samba canção
"Maxixe não é samba' traz belas jóias obscuras."
Do disco de Donga com duas gravações antigas de Almirante (onde o homenageado atua ao violão) ao lado de um regional de primeira (Dino, Meira, Canhoto, Altamiro Carrilho, Abel Ferreira, Joel Nascimento, Jorginho, Elizeu) participaram, além de Leci e Gisa, Paulo Tapajós, Marçal e Elizeth Cardoso (na estupenda Canção dos infelizes).
O compositor aparece em trecho de depoimento para o Museu da Imagem e do Som, de 1969, onde chama atenção para a África carioca onde nasceu o samba, nas ruas Senador Pompeu, do Hospício (depois Buenos Aires), nos bairros de Cidade Nova e Saúde.
Também cercada de grandes músicos, com arranjos e direção musical do violonista João de Aquino, Vó Maria abre seu CD com o hino da Pequena África, Pelo telefone. Esse maxixe entrou para a história como primeiro samba (embora tenha saído uma dezena de músicas anteriores com a mesma denominação de gênero) e causou rebuliço pela letra atrevida (na paródia, já criticava a corrupção policial) e a discussão do registro autoral em nome de Donga (música) e do jornalista Mauro de Almeida (letra), que se assinava Peru dos Pés Frios.
Coisa da antiga (Wilson Moreira/ Nei Lopes) prefacia Com que roupa, de Noel Rosa, e o sucesso de Clementina de Jesus Pergunte ao João (evocação a um programa da rádio JB) ganhou um corte entre o caribenho e o lundu.
O tema ancestral de João da Baiana Cabide de molambo tem alicerce de bombardino (Silvério Pontes) e pulso de maxixe com vocal de Martinho. Não falta o terceiro integrante da santíssima trindade inaugural da MPB (ao lado de Donga e João da Bahiana), Pixinguinha, no afro-samba Yaô, ao lado de dois outros criadores seminais, Sinhô (Gosto que me enrosco, Jura) e Heitor dos Prazeres (Mulher de malandro).
E junto das pérolas obscuras supracitadas e da rural Moro na roça, difundida por Clementina e Xangô (que dueta no disco), Vó Maria mostra um insuspeito talento para o samba canção, no clássico popularizado por Carmen Costa Eu sou a outra (Ricardo Galeno), cantado, no caso, com uma doce amargura pungente. (Tárik de Souza).
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