JORNAL DO BRASIL - 05/07/2003
'Donga me dizia: Cantar pra quê?'
Tárik de Souza


Viúva do autor do primeiro samba, Vó Maria estréia em disco aos 92 anos.

O recorde é digno de Guiness, como ressalta no encarte o pesquisador Ricardo Cravo Albin, cujo Instituto assina a produção fonográfica do CD Maxixe não é samba, estréia da cantora Vó Maria, do alto de seus espigados 92 anos, a viúva do compositor Donga (Ernesto dos Santos), co-autor do samba primal Pelo telefone, sucesso do carnaval de 1917. Seria um marco de júbilo ou vergonha, o desembarque tão tardio no país desmemoriado? Pior ocorreu com o próprio Donga. Ele morreu em 1974, aos 83 anos, quando a gravadora independente Marcus Pereira ia fazer seu primeiro registro cantando.

- Gisa Nogueira e Leci Brandão puseram voz nas respectivas faixas já no dia do velório - lembram em coro as netas Sônia e Zilmar, que moram com Vó Maria em um apartamento da Tijuca.

Ela está forte e lúcida (''mesmo quando fica doente, faz sua própria comida e nem reclama de dores'', testemunha Sônia) e estréia acantonada por um elenco de primeira, com Beth Carvalho, Martinho da Vila, Nelson Sargento e Xangô da Mangueira, entre outros. Todos freqüentadores da casa de Donga, um líder de classe que deu o primeiro passo para o reconhecimento do samba ao registrar Pelo telefone na Biblioteca Nacional, em 1916.

Apesar de conviver com ele durante quase 60 anos nas vizinhanças da antiga Aldeia Campista, Vó Maria foi sua terceira esposa e se manteve afastada do ambiente.

- Eu cantava mais em casa, em festas, para amigos. Não ia ao samba, me limitava às batalhas de confete da Rua Dona Zulmira, onde podia voltar para casa sozinha - lembra.

Maria das Dores Santos Conceição, filha de um lavrador, nasceu na cidade fluminense de Mendes, veio para o Grajaú com 10 anos e foi criada por uma família (como ocorria na época) até o casamento. Na família de médicos, aprendeu sua única profissão: dietista.

- Fazia dieta para os doentes, mas sempre em casas, nunca trabalhei em hospital - separa.

Casou-se aos 20 anos, perdeu o marido num desastre dois anos depois. Quando conheceu Donga, também viúvo, sua filha ficou amiga de Lygia Santos, a filha de Donga (professora e pesquisadora que prepara um livro sobre o pai).

- Até hoje Lygia me chama de mãe - orgulha-se Vó Maria, que só foi morar com o compositor e músico (tocava banjo e ponteava um violão achatado que entrou para a história como ''violão bolacha'') depois do segundo casamento.

Mas reconstitui a animação da casa dele, onde a música corria solta com convivas como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, João da Bahiana e Benedito Lacerda. Recorda também a famosa festa da (igreja da) Penha nos primórdios.