O DIA - 09/02/2004 - VIVA MAIS E MELHOR
Uma bela voz potente.
Sérgio Cabral Filho

Vó Maria participa de DVD de Martinho da Vila e faz show com o cantor no Canecão.

Vó Maria se realiza aos 92 anos: “Estou feliz porque gostam de me ouvir”

Ao subir ao palco, a viúva de Donga – autor de Pelo Telefone, primeiro samba gravado no Brasil – transforma um fio de voz em potência para cantar os mais belos sambas da MPB. Depois do sucesso de seu CD e das recentes apresentações, Vó Maria, 92 anos, está aproveitando o momento de reconhecimento com entusiasmo. “Cantar é um grande prazer. Estou muito feliz e realizada por saber que gostam de me ouvir. Agradeço a Deus tudo o que estou recebendo”, diz Vó Maria.

A cantora, que em 2003 gravou o CD Maxixe não é Samba, produzido pelo selo Instituto Cravo Albim com apoio do Ministério da Cultura, está com a agenda cheia. De sexta-feira a domingo, vai participar do show de Martinho da Vila, no Canecão, e no dia 3 fará dois shows no Centro Cultural do Banco do Brasil de Brasília acompanhada dos músicos João de Aquino, Galloti, Marco Basílio e Esqueleba, que terá ainda a participação da cantora Mart’nália. “Conheço o Martinho desde o início de sua carreira. Fui com o Donga no primeiro show que ele fez. A partir daí, sempre mantivemos contato. Vou cantar a música Cabide de Mulambo, de João da Baiana, e Pelo Telefone, no Canecão”, conta ela, que também estará no DVD que vai registrar o show do sambista.

Viúva de Donga tem até site na Internet.

Vó Maria, que canta músicas como Braço de Cera, Pergunte ao João, Moro na Roça, Meu Amor, Vou lhe Deixar e Jura, também está com um site na Internet. No endereço eletrônico http://www.vomaria.kit.net é possível ler sua biografia, ver fotos e ouvir faixas de suas músicas.

A neta Sônia Regina Oliveira conta que a avó surpreendeu toda a família quando começou a soltar a voz nas primeiras apresentações no Museu da Imagem e do Som. “Vovó fala baixinho, mas quando canta mostra uma voz forte e firme”, conta. “E, agora, tirou a carteira profissional de cantora na Ordem dos Músicos. No teste, só precisou cantar uma música e ganhou a nota máxima”, acrescenta.

Vó Maria acredita que sua vitalidade e talento sejam fruto da infância calma vivida na cidade de Mendes, interior do Rio, e de seu contato com pessoas do meio musical. Seus irmãos eram instrumentistas, tocavam saxofone, cavaquinho e banjo, e a convivência com Donga a fazia respirar música. “Meus irmãos eram músicos e, quando casei com Donga, nossa casa ficava cheia de gente, era uma alegria, uma festa”, conta ela, que gosta de cozinhar e faz todo o serviço da casa. “Cozinho, arrumo e lavo a louça”, orgulha-se.

Considerada um exemplo para os netos, a cantora realizou seu primeiro show aos 90 anos, no Festival de Choro do Rio de Janeiro, realizado na Sala Cecília Meirelles. “A vovó é um exemplo bem-sucedido. Ela não teve uma vida fácil e soube transformar isso e dar a volta por cima. Nunca aprendeu técnica vocal. Nada. Ela vai com a cara e a coragem. Quando tenho um desafio na área profissional ou na área afetiva, penso nela. Ela é uma mulher iluminada”, diz Sônia Regina, que mora com a avó-cantora na Tijuca.