Recado de Ricardo Cravo Albin
Permitam-me eu me colocar em pé, uma reverência especialíssima à Vó Maria e à distintíssima Mesa, presidida pelo Vereador, que teve a oportunidade de provocar, de promover um ato desta justiça, em que a Cidade do Rio de Janeiro se curva para reverenciar Vó Maria.
Minhas amigas Zilmar e Lígia santos, queridos tantos amigos aqui presentes, eu quero observar, em poucas palavras, que Vó Maria não cabe nela própria em importância. ela é muito mais que ela mesma. Ela representa, aos noventa e dois anos, várias necessárias e raras bandejas, aquilo de que a gente, hoje, dispôe dentro da cultura brasileira. Ela representa, aqui, a herdeira da gente que construiu não apenas o samba, que veio a partir de 1917, com Donga, o Ernesto, Maria dos Santos, o legendário Donga, a quem certamente a cultura e o Brasil tando devem, e que foi, por vezes, injustiçado. Essa história de se dizer que Donga, por aquilo ou por aquilo outro, não é autor do "Pelo Telefone", é, além de um insulto, uma mentira: ele foi, sim, o legítimo criador do primeiro samba gravado.
Vó Maria apresenta esses pioneiros, Donga à frente; representa Pixinguinha; representa o inesquecível João da Baiana. Estou, agora, a vê-lo todo perfeito, todo alegre, todo mesuras, com a sua gravatinha para o ar. Ele que representou, pelo menos para nós que o conhecemos ao longo dos anos sessenta, uma das mais finas flores da Cidade do Rio de Janeiro. Quem o conheceu, aqui nesta Mesa, sabe precisamente a ternura a que eu me refiro quando falo, emocionadamente, acreditem, dessa figura extraordinária de João Machado Guedes, o querido tio João da Baiana.
Ela representa, também, as grandes mulheres que perpassaram pela música popular brasileira, à testa das quais, é claro, a maestrina Chiquinha Gonzaga; também com descendência direta de escravo, apresenta, já depois, na época de ouro, as grandes cantoras que iluminaram a era do rádio no Brasil.
Mas, Vó Maria representa, igualmente, por um outro viés, numa qualificação extraordinária do Brasil e do Rio de Janeiro. Ela representa a bondade, a alegria, a maneira faceira de ser, representa a descontração tão carioca. Portanto, Vó Maria representa a alma do Rio de Janeiro no que ela tem de melhor, de mais fraterno, de mais generoso. Por que tudo isso? Porque a felicidade dos fados nos deu Vó Maria, até aqui, aos 92 anos, registrando... E nisso vai uma outra ponte, uma outra fonte, um outro ponto fundamental do seu grande legado - o legado de Zumbi. Certa vez, falando de Zumbi e falando do meu querido Heitor dos Prazeres, aqui no Ministério da Cultura, ainda há pouco tempo, eu me referia ao Heitor dos Prazeres como um marechal de Zumbi. Como todos os pioneiros foram marechais e legatários de Zumbi, Vó Maria é também herdeira desta fibra, desta força, que, envolvida em alegria, bondade e ternura, representa a raça negra no que tem de melhor. Portanto, é a configuração do melhor da alma brasileira.
Portanto, Vó Maria representa muito. E representa, sobretudo, retomando aquilo que queria dizer, aos 92 anos, uma cantora gravando seu primeiro CD. Ela poderia ter registrado discos em velhas bolachas, a partir talvez dos anos vinte, na gravação mecânica; poderia ingressar na época de ouro, ao lado de Carmem Miranda, de Odete Amaral, de Elisinha Coelho, de Araci de Almeida, de tantas outras; poderia, sim, gravar discos já elétricos na gravação elétrica das velhas bolachas; poderia, finalmente, ter ido ao LP; poderia ter ido ao "extended play"; poderia ter perpassado por tudo isso, mas se deu a esse luxo extraordinário de estrear aos 92 anos, na fina flor da tecnologia do ano 2000, gravando seu primeiro e memorável disco, um CD. É esta mulher extraordinária que nos orgulha, que nos faz sentirmos muito melhor numa cidade extraordinariamente densa e querida, tão infelicitada, por vezes, como o nosso Rio de Janeiro. ela nos representa no que nós temos de melhor, especialmente nesse disco gravado agora, disco feito com apuro, com muitíssima sensibilidade pela pesquisadora Marília Trindade Barbosa. E feito com requinte extaordinário, com arranjos admiráveis de um grande músico brasileiro, que é João de Aquino.
Lembro muito bem que, ao levar a idéia ao Instituto Cultural Cravo Albin de editar o disco, de se responsabilizar pelo disco, quando Marília Trindade Barbosa nos levou ao Instituto esta idéia, lembro-me da diretora Maria Eugênia Stein, de nossa diretora cultural, do entusiasmo com que ela correu gererosa e entusianticamente a dizer um "sim" esplendosoro para este disco, que não podia ser outra senão um esplendor.
Ao dizer tudo isso de Vó Maria, quero registrar esse momento histórico, esse momento, meu caro Edson Santos, de felicidade que você nos permite ter aqui dentro da Câmara do povo carioca, dentro da Casa do povo carioca. Quero entregar este disco que será lançado oficialmente numa festa que, eu tenho certeza, será uma festa da nação, será uma festa da nacionalidade. Até proporia ao querido Edson Santos, ao querido Eliomar Coleho, ambos representantes do poder legislativo da Cidade do Rio de Janeiro, passo a cada um o seu exemplar com prioridade máxima.
Queria também propor aos representantes do Rio de Janeiro que levem ao Presidente da República, ao Presidente Lula, uma idéia que não é audaciosa, porque absolutamente legítima. Esse disco, ao meu ver, representa Vó Maria. Ser lançado em Brasília, com a presença do Presidente da República, é uma homenagem que o País deve a ela, ao legado dela e a tudo o que representa esse extraordinário cadinho de beleza, de magia, de sortilégio e de resistência. Esse disco de Vó Maria tem participações especiais de Nélson Sargento, de Xangô da Mangueira, de Beth Carvalho, que está aqui, acaba de chegar, e de Martinho da Vila. Eu pediria ao nosso Eliomar Coelho que recebesse, em nome do Poder Legislativo desta Cidade, o disco "Maxixe não é Samba". É o primeiríssimo exemplar. É um disco que vai nos orgulhar ouvir e, evidentemente, a homenagem mais reverencial de todos nós que amamos o Rio ao autor desta linda inesquecível homenagem e deste encontro memorável em torno de Vó Maria, em torno de tudo o que ela representa. Quero que o Vereador Edson receba agora "Maxixe não é Samba", de Vó Maria, das mãos de Vó Maria.
Quero, finalmente, para encerrar, dizer que este disco tem uma configuração histórica de raríssimo valor. É um disco que representa não apenas um valor isolado, não apenas uma cantora, mas a cantora mais antiga a começar a carreira no mundo. Clementina de jesus, por exemplo começou uma carreira que nos encantou e encantou o mundo aos sessenta anos, ou ao final dos anos cinqüenta e tal. Vó Maria começa uma carreira que, eu tenho certeza, será marcada por plenos êxitos e por absolutas alegrias a todos nós, seus ouvintes e admiradores, aos noventa e dois anos. Já é certamente um recorde, tenho certeza até um recorde mundial.
Portanto, eu gostaria de encerrar fazendo um brinde imaginário: Viva Vó Maria.
Obrigado!
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